2fsbici 57De 16 a 19 de outubro, os olhos do cicloativismo nacional se voltaram para Aracaju. Isso porque a segunda edição do Fórum Sergipano da Bicicleta – 2fsbici – reuniu poder público, sociedade civil e iniciativa privada para discutir os atuais e futuros caminhos dos deslocamentos por bicicleta na cidade. O evento contou com uma vasta programação que envolveu a exibição de curtas metragens, palestras, debates, apresentação de trabalhos sobre a ciclomobilidade, passeio ciclístico e atividades culturais que deram um tom de confraternização, tanto pela constatação dos avanços já alcançados quanto pela esperança nas mudanças que estão por vir.

Chamando a atenção para a necessidade da criação de uma infraestrutura urbana que viabilize a mobilidade sustentável, assim como políticas públicas capazes de promover deslocamentos rápidos, além de eficientes e comprometidos com o meio ambiente e a saúde coletiva, o Fórum deu o seu recado de diferentes modos. Muito mais do que levantar a bandeira do planejamento cicloviário e das ações de educação para o trânsito, a organização do evento, feita pelos membros da ONG Associação Ciclo Urbano, demonstrou amadurecimento.

Essa foi a avaliação da palestrante, Aline Cavalcanti, uma das referências do País quando o assunto é bicicleta como meio de transporte. Jornalista sergipana radicada em São Paulo, onde se descobriu cicloativista, ela não poupou elogios ao evento. “Do ano passado pra cá houve uma evolução notória. Esse ano houve um grande respaldo da mídia local e uma diversidade maior de participantes. Achei muito bacana também os trabalhos apresentados, eles promoveram uma aproximação com a pesquisa e a academia, o que é muito útil para a nossa causa”, afirmou Aline enquanto aproveitava o último dia do Fórum, que transformou a rua Leonardo Leite, no bairro São José, em um espaço de convivência e lazer.

Aline lembrou ainda que, há seis anos, quando fixou residência em São Paulo, o movimento em prol de uma mobilidade sustentável estava apenas começando no Brasil, mas os grupos acabaram seguindo a mesma direção, em uma espécie de intuição coletiva. “Parece que trabalhamos juntos em cidades diferentes. Percebo que o Brasil inteiro está indo no mesmo caminho. Especialmente em Aracaju vejo muito o envolvimento da sociedade civil, o que é muito bonito de se ver. Acho que o que falta ao aracajuano é valorizar a cidade, que é linda, um verdadeiro paraíso. Falta gente aproveitando a rua”, ressalta ela.

Para Aline, outro aspecto notório durante o Fórum foi o grau de articulação que a Ciclo Urbano alcançou ao conseguir manter um canal aberto de diálogo com o poder público. “Aracaju tem uma das mais atuantes e bem articuladas associações do País. Fico muito orgulhosa com o que está acontecendo aqui”, declarou. Ratificando a opinião da jornalista, João Paulo Amaral, um dos idealizadores da Escola Bike Anjo Brasil, também testemunhou a evolução do evento. “Estive presente na primeira edição do Fórum e achei a programação desse ano muito mais completa. Ter o poder público presente e apoiando essas discussões é sempre muito produtivo”, disse ele.

Por ter se hospedado no bairro Aruanda e o local do evento ter sido na Sociedade Semear, no bairro São José, João Paulo teve a oportunidade de circular por diferentes regiões da cidade usando a bicicleta, o que o permitiu traçar um diagnóstico da estrutura cicloviária local. “Não senti nenhum grande problema, mas acho que precisa melhorar até mesmo para encorajar mais pessoas a trocar o carro pela pedalada. Além disso, falta informação para promover a acessibilidade para o turista. Muitas vezes me via em uma rua sem saber que tinha uma ciclovia perto. Em outros casos, tive que subir em um canteiro alto ou atravessar uma passarela para poder acessá-la. O ideal é que o ciclista tenha a mesma facilidade que as pessoas de carro encontram para circular”, analisou João Paulo.

Escola Bike Anjo
Outra grata surpresa para os visitantes foi a Escola Bike Anjo. Coordenado pela ONG Ciclo Urbano, o trabalho segue as mesmas diretrizes da instituição original, sediada em São Paulo. A afirmação veio de Marcos Jana, membro do Bike Anjo São Paulo. “Foi fantástico esse encontro com o pessoal do Bike Anjo Aracaju. Antes, o nosso contato era apenas virtual. Eles nos procuraram para falar sobre o interesse em realizar o projeto e nós enviamos todas as orientações. Mesmo já sabendo que eles tinham conseguido implantar, foi muito gratificante chegar aqui e descobrir que a nossa filosofia é a mesma”, explicou ele.
Marcos conta também que chama a atenção fora do Estado o nível de engajamento alcançado pela Ciclo Urbano. Por esse motivo, a capital sergipana já estava, há algum tempo, na lista de lugares que ansiava conhecer. Quanto às ciclovias que viu por aqui, ele alerta para a necessidade de obras de conservação e sinalização. “Existem áreas de conflito nos cruzamentos. Nesses pontos, quase não há sinalização. Quando tem o favorecido é o carro, quando deveria ser o ciclista, dada a sua vulnerabilidade. Já os motoristas são educados, não tive problemas para circular pela cidade”, assegura.

Membros
Diante do sucesso do Fórum, os membros do Ciclo Urbano têm motivos de sobra para celebrar. “A equipe inteira está de parabéns pela dedicação e esforço antes e durante o evento. Foi lindo! Vamos trabalhar melhor em 2015 e pedalar até o próximo fórum”, declarou Thiago Massas, que cuidou da transmissão on-line, da sonorização e ainda fotografou.

2fsbici 18Também vibrando com o resultado do trabalho, Fabiana Droppa, que assinou toda a comunicação visual do evento, escreveu: “Planejar, (re) pensar e agir coletivamente. Essas foramas palavras que me guiaram durante o 2fsbici. Há um ano eu estava como espectadora no I Fórum Sergipano da Bicicleta. Gostei tanto da proposta que me associei e decidi chegar mais de perto das ações da Ciclo Urbano. Agora, nos quatro dias da programação do Fórum, ficou claro que a motivação – individual e coletiva – fizeram o pedal girar. Foi maravilhosa a oportunidade de ouvir pessoas renomadas, que vivenciam a bicicleta, falando sobre o que acontece em outras cidades. E o que dizer do encerramento? Um dia lúdico, no qual tivemos um pedal cultural que contou a história da nossa Aracaju; depois as pessoas ocuparam a rua, fazendo a Rua Viva, com arte, música boa, pessoas aprendendo a andar de bicicleta e oficina. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo. Sem dúvida, cada momento teve uma mensagem especial e gratificante. Fazer parte de tudo isso é maravilhoso”.

Apoiadores e palestrantes
Colaboraram para a realização do 2⁰ Fórum Sergipano da Bicicleta 124 voluntários que contribuíram com doações em dinheiro através do site catarse. Entre os apoiadores institucionais e patrocinadores estão Bici Clube, Casulo, Ecociclo Bicicletaria, Ecociclismo, J. Andrade Gráfica e Editora, LM Bike, Magazine Bike Show, Peregrinos, RR Bike, SMTT Aracaju, Sociedade Semear, TV Sergipe, além de entidades cicloativistas e sem fins lucrativos, Associação Bike Anjo, BH em Ciclo e Vá de Bike.

Essa união de forças possibilitou a vinda de um time de palestrantes de grande relevância. Contribuiu para o engrandecimento do evento, Altamirando Fernandes Moraes, subsecretário de Meio Ambiente da Cidade do Rio de Janeiro – SMAC – que apresentou o trabalho exitoso que vem sendo realizado pela Prefeitura do Rio ao investir expressivamente em infraestrutura cicloviária, o que confere à cidade título de bike friendly.

2fsbici 33O Fórum recebeu também a jornalista sergipana Aline Cavalcante. Ela vive em São Paulo desde 2008 onde trabalha com questões referentes à mobilidade urbana, ocupação do espaço público e incentivo ao uso seguro da bicicleta nas cidades. Também integra a frente de jovens empreendedores motivados pelo novo momento da bicicleta no Brasil.

Outra palestrante foi Clarisse Cunha Linke, diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento – ITDP Brasil. Durante cinco anos, ela fez parte da diretoria da Bicycling Empowerment Network Namibia, uma organização responsável pela maior rede de distribuições à implementação de empreendimentos sociais na África sub-Saariana. Mestre em Políticas Sociais, ONGs e Desenvolvimento, é vencedora do desafio “Mulheres, Ferramentas e Tecnologia” da Ashoka Changemakers.

Daniel Valença, da Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife, que
tem como principais eixos de ação o fomento ao uso de bicicletas e a democratização das vias públicas; Francisco Navarro, diretor de Planejamento e Sistemas – SMTT Aracaju; João Paulo Amaral, um dos idealizadores do Bike Anjo São Paulo; e Zé Lobo, fundador a Organização Transporte Ativo que, desde 1989 vem defendendo e divulgando o uso das bicicletas na cidade e fora dela completaram o time de palestrantes do evento.

Outra presença marcante foi Valdinei Calvento Junior, o Cabelo, como é conhecido. Designer, ilustrador e artista plástico paulistano que mantém um blog Igual Você (http://igualvoce.wordpress.com/), deixou a sua marca em um dos muros da Sociedade Semear, onde pintou uma de suas ilustrações de tom ativista que convidam a refletir sobre a relação das pessoas com as grandes cidades, mobilidade, sustentabilidade e uma vida mais saudável.

Poder Público
2fsbici 82O presidente da ONG Transporte Ativo do Rio de Janeiro, Zé Lobo, também parabenizou o trabalho desenvolvido pela Ciclo Urbano, e comentou das dificuldades enfrentadas por esses idealistas quando o Poder Público não soma. “Algumas coisas no Rio levaram 20 anos, outras levaram 10 anos, outras menos tempo, isso porque a prefeitura agora tem se sensibilizado quanto ao entendimento de que a bicicleta é importante para a sociedade. Então coisas que levavam cinco ou seis anos, hoje ficam prontas com seis meses. O Poder Público tem vital participação porque é ele que pode desenvolver as grandes obras de mobilidade. É fundamental que eles compreendam essa necessidade de evolução para o espaço para as bicicletas com o crescimento das cidades”.

Zé Lobo apostou ainda que Aracaju pode dar passos largos rumo a mobilidade com o uso da bicicleta. “Aracaju vem engatinhando desde 2005 quanto à questão do ciclista. Eu adoro o trabalho da Ciclo Urbano e acho que o trabalho é esse mesmo: pesquisar e levantar a necessidade do ciclista na cidade. O que trouxe de informações dos projetos do Rio foi mais para motivar, mostrar o que está acontecendo já em outras cidades maiores e mais cheias de conflitos do que aqui, com a visão de que é possível sim termos cidades melhores, mais voltadas para as pessoas”.

O superintendente da SMTT, Nelson Felipe, esteve presente na abertura do evento e na palestra com o secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Altamirando Fernandes Moraes, que apresentou os detalhes do projeto Rio Cidades da Bicicleta. Impressionado com as ideias debatidas no fórum, o superintendente prometeu semelhantes projetos em Aracaju. “Não tenha dúvida que será muita coisa aplicada. Nós já tivemos há alguns meses no Rio de Janeiro, já pegamos inclusive o manual de ciclovias deles, e muita coisa dos nossos projetos estão com base no sucesso do Rio. A roda não precisa ser reinventada, mas precisa ser melhorado seu desenvolvimento. É isso que temos que fazer em Aracaju. Trazer os exemplos para adequar a nossa realidade”, afirmou.

Crescimento
2fsbici 31Na visão do presidente da Ciclo Urbano, Luciano Aranha, a importância da bicicleta de fato cresceu ao olhar dos planejadores urbanos, mas esta muito aquém das suas possibilidades. “Em Aracaju vemos que ainda esta longe o dia em que poderemos comemorar o centésimo quilômetro de ciclovia implantado. Daí a importância de eventos como o 2fsbici, que reforçam o que já é perceptível. A sociedade clama por uma nova cultura da mobilidade, que dê prioridade a formas de circulação coletivas, a pé e de bicicleta integrando em rede os diversos modos de transportes, garantindo a acessibilidade segura e confortável a todos os pontos da cidade”, ressaltou ele.

Analisando a repercussão do Fórum, o presidente se diz satisfeito. “O 2fsbci foi a grande oportunidade de todos os setores da sociedade repensarem a organização, o planejamento da nossa cidade e resgatar ideias voltadas para os espaços de convivência humana. A Ciclo Urbano acredita que, ao usar a bicicleta não apenas como um meio de transporte, mas como um meio de transformação, será possível alcançar uma mobilidade urbana sustentável de verdade. Acreditamos que as cidades que enfrentarem os seus desafios para mobilidade vão dar um salto de desenvolvimento à frente das outras”, declarou Luciano.

Ele ainda acrescenta, “tornar o transporte mais eficiente é uma iniciativa que caminha de mãos dadas com a melhoria da qualidade de vida e a redução da desigualdade, tão necessárias e urgentes em nosso país. Em todo o mundo, as pessoas não querem mais ficar sentadas em seus carros em intermináveis engarrafamentos. Elas querem estar em cidades que proporcionem interações criativas, circulação acessível a todos, em um ambiente saudável e cheio de vida. Temos que agir imediatamente, antes que nossas cidades fiquem sufocadas pelo excesso de veículos particulares. O Segundo Fórum Sergipano da Bicicleta foi elemento de inspiração e motivação para o fortalecimento do movimento em direção à bicicleta em Sergipe”.