“A omissão do povo dá folga à omissão dos governos”

Por Luciano Aranha

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Os poucos gritos

Vejo muita gente reclamando do descaso dos governos com os ciclistas desde a falta de árvores (que forneçam sombra aos ciclistas), até proliferação dos buracos nas ciclovias ou falta de acessibilidade nas ruas. E é unânime em Aracaju, por exemplo, que temos condições de sermos a capital da mobilidade urbana, mas o Poder Público fecha os olhos e nos limita a pequena cidade do caos em vários serviços, entre eles o trânsito. No entanto, há um detalhe que passa despercebido, mas é terrivelmente o núcleo de tudo: o nosso silêncio. É evidente o comportamento da população de evitar a responsabilidade de cobrar e fiscalizar, como cidadãos de uma democracia, o exercício do poder político, e optar, como mais fácil, a convivência com atos tão graves como a violência no trânsito e a política pública antimobilidade sustentável. Isso caracteriza nosso descaso com nossa cidade também.

Em 2011, o então prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, anunciou um projeto de interligação das ciclovias . E mais recente, 2013, foi anunciado pelo prefeito João Aves Filho a construção de uma ciclovia ligando a 13 de Julho ao bairro Coroa do Meio, por meio de uma plataforma metálica suspensa, passando pela ponte Godofredo Diniz, do RioMar. Mas onde está essa promessa de 2011? E a de 2013, quando se concluirá? A população, principalmente os ciclistas, precisam lembrar esses anúncios dos Poderes, até então meramente publicitários, e cobrar. Afinal, os recursos investidos nesses projetos são públicos. Contudo, o que é mais comum de ver é grande parte da sociedade descartar esse debate e as manifestações em prol de condições melhores de vida. Como, por exemplo, um ato público defendendo a valorização das ciclovias, ou protesto contra a morte de ciclista. Não é importante para nós? Então porque não expomos? Logo, eis o exercício da omissão por parte das pessoas.

Buracos, acidentes com ciclistas, degradação do patrimônio público, roubos, etc, são problemas notórios e nós estamos, na prática, nos esquivando de abordar ou propor formas de que o descaso seja erradicado.  Pode-se levantar um contraargumento de que a Prefeitura de Aracaju e o Governo do Estado Sergipe nada fazem além de obras de caráter estético. Mas como é que eles podem ver a necessidade de fazer algo que seja importante se ninguém – ou tão pouca gente – reivindica e insiste que sejam feitas melhorias? Numa analogia ao âmbito pessoal, como é que eu vou saber que você quer aprender a andar de monociclo se você nunca me disse?

Outro exemplo da omissão popular é como a população lida com o tema mobilidade urbana. A necessidade de se informar para defender melhor essa questão, que é a chave para fluidez no trânsito, é trocada pelos momentos de resmungos via redes sociais, ou para amigos do pedal e/ou parentes, mesmo sabendo que só especular o fato não adianta. É preciso reclamar com aqueles que têm nas mãos as condições de operar uma mudança para o ambiente público. Assim, nesse troca-troca de ideias, mas longe de atos que incomodem os governantes, o descaso se faz quase insolúvel para quem anda de bicicleta, mas a indisposição ao protesto se caracteriza muito pior: uma legítima omissão popular ao problema.

Isso se estende para quase todos os grandes problemas do Brasil. O governo diz às vezes que tal problema, como a segurança pública das cidades e das estradas, é uma necessidade urgente, mas a verdade é que nunca terá a convicção de que é uma demanda realmente urgente se ninguém está cobrando em público a segurança que é um dos deveres do Estado. Sem a população cobrando constantemente, pegando no pé, nunca haverá providências de boa vontade nem tampouco compreensão das necessidades populares. Por isso, é de se refletir que a omissão do povo dá folga à omissão dos governos.

Como queremos que o governo adote uma postura comprometida com a resolução dos nossos problemas coletivos se nem nós mesmos os levamos a sério? Como podemos esperar providências para a mobilidade sustentável, se não sabemos do se trata, ou achamos que não temos nada a ver com isso? A opção da maioria tem sido fazer pouco caso. É claro que poucos gritos juntos podem emitir um forte som, e é essa a perspectiva daqueles que ainda levam os reclames às ruas e às sedes dos Poderes. E mesmo que a resposta com melhorias venha com retardo, pior seria se ela nunca tivesse sido provocada.

 

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